O Brincar na Terapia Infantil
- 7 de mai. de 2023
- 5 min de leitura

O brincar é uma ferramenta clínica de extrema importância para trabalhar com crianças, sejam elas com ou sem necessidades especiais. O brincar possibilita que a criança se constitua como sujeito de suas próprias ações, dando oportunidade de mostrar seus desejos e significados, e ainda, ajuda a antecipar ou elaborar suas emoções preparando-a para a vida que se segue.
Desde o nascimento, o ser humano passa por várias fases de desenvolvimento. De modo geral, quando criança, desenvolve suas potencialidades, a linguagem, expande sua relação com o meio, vive a contradição, a partir dos jogos de imitação e simbolização que o permite vivenciar conflitos que podem contribuir para afirmar seu "EU" e ganhar interesse pela vida social, conquistando assim o mundo. Segundo Werneck (1995), todos os seres humanos são resultado de dois fatores fundamentais: o constitucional (genético, hereditário, congênito) e o ambiental, que é a forma pela qual somos recebidos e cuidados pelo mundo intra e extrauterino. Uma das primeiras capacidades construídas é a de simbolizar, o que representa um passo importante para o desenvolvimento do pensamento. A capacidade de conhecer e aprender se constrói a partir das trocas estabelecidas entre o sujeito e o meio. O fato de a criança desde cedo se comunicar através de gestos, sons e mais tarde representar determinado papel na brincadeira faz com que desenvolva sua imaginação, pensamento e construa conhecimento. A partir dessas vivências com o meio e interações com os sujeitos, a criança busca compreender a realidade a sua volta elaborando hipóteses e explicações sobre os fenômenos naturais, sociais, históricos, etc. Ao considerar essas experiências da infância, o terapeuta entende que a criança precisa: brincar para crescer; do jogo como forma de equilíbrio com o mundo; do faz-de-conta como fonte de "amadurecimento" e; de manifestar e de desenvolver sua sexualidade. Ao brincar, Segal (1975) refere-se que a criança poderia representar simbolicamente suas ansiedades e fantasias.

O terapeuta precisa ficar atendo para, inicialmente, perceber se ela está conseguindo diferenciar a realidade de fantasia. É interessante lembrar que ela não é um adulto, então não possui muitos elementos para entender a realidade, já que tem pouca vivência. Mas por outro lado, ela está mais aberta a novas experiências e isso pode ser explorada. É importante entender que um problema pequeno para o adulto, pode ser grande para a criança, uma vez que ela tem menos mecanismos de defesa, não possui habilidade de proteger-se no futuro, então encontra dificuldades de entender as consequências de um ato. Ser terapeuta infantil é despertar a criança interior que existe dentro de nós. Ser terapeuta, é buscar nosso lado mais criativo, é entrar no universo da criança, e assim o trabalho flui, e você começa a contribuir, acelerar seu desenvolvimento saudável, se tornando facilitador para melhorar a qualidade de vida dessa criança. Para que a terapia fique cada vez mais sob medida, deve-se descobrir o perfil da criança, o que ela gosta, o que não gosta, como lida com os sentimentos, como se manifesta, como reage, como percebe as coisas, como ela funciona, o que a atrai, o que ela valoriza, em que se amarra, em que se apoia. Com todos esses elementos, o terapeuta poderá montar sua estratégia. Winnicott (1975) diz que o brincar é universal e facilita o crescimento e, portanto, a saúde, conduz a relacionamentos grupais, pois é uma forma de comunicação consigo mesmo e com os outros; tem um lugar e um tempo muito especiais, não sendo algo só "de dentro", subjetivo, interno, ou só "de fora", objetivo, externo, mas se constituindo justamente num espaço potencial entre o eu e o não eu, entre os mundos internos e externos, que justamente vão se formando à medida que o brincar se desenvolve de forma criativa e original. É importante para o terapeuta observar qual a posição que a criança ocupa na família, pois esta posição determina a forma como se relaciona com o mundo. É importante também ele saber lidar com a criança, ser amável, passar segurança, confiança, para que ela se sinta a vontade e consiga que ela seja transparente. Dessa forma, o trabalho flui, pois a criança acredita que pode ser ajudada e a terapia dá bons resultados. No primeiro atendimento há a necessidade de se estabelecer uma conversa com os pais ou responsáveis, para que possam ser observados valores familiares, o contexto que criança vive, o que é cobrado dela, o que ela pode ou não fazer, como se comporta, sua história de vida, da gravidez, traumas, acontecimentos importantes. É relevante ainda observar a demanda da criança ou dos pais e conhecer em que ponto é preciso agir, a partir do funcionamento da família, do meio em que ela está inserida. É necessário fazer as perguntas certas, explicar como funciona a terapia infantil, como é a participação dos pais, a parceria terapeuta e família e destacar que os encontros com eles ocorrerão de acordo com a necessidade do tratamento. Já o segundo atendimento é feito com a criança. Existe a necessidade de cativá-la, estabelecer uma relação de confiança, mais importante ainda é realizar um atendimento sob medida, deixando os brinquedos que ela gosta acessíveis, expostos, perguntando a ela sobre o que está fazendo, explicando no que pode ajudar e o que mais irão fazer, deixando-a a vontade.

Vygotsky (1988) afirma que o brinquedo é um fator muito importante do desenvolvimento, indo além das funções de exercício funcional e de seu valor expressivo. O brinquedo é também uma das maneiras da criança participar da cultura. O brinquedo que favorece o desenvolvimento, em termos de sua apropriação dos instrumentos da cultura, é um brinquedo regulado pela própria cultura. É necessário que no consultório tenha objetos que permitam a criança entrar no universo dela, descobrindo-o, atualizando-se dos jogos, brincadeiras, desenhos. O consultório de atendimento é um espaço “mágico” para a criança, disponível, revelando a dinamicidade do trabalho do terapeuta. O brincar na sessão de terapia é uma forma de entrar no mundo da criança e de agir sob medida, já que o uso do brinquedo permite que se explore seu emocional, os aspectos patológicos e como entende e se comporta no mundo.

É significante que o brincar esteja presente no processo terapêutico da criança, pois ele permite observar diversos aspectos: como a criança lida com o perder e ganhar, como é sua atenção quando está fazendo algo que gosta ou que não gosta, entre outros. O terapeuta propõe os jogos de acordo com as necessidades que surgem por parte das crianças e também permite até mesmo que elas escolham. A duração varia de acordo com seus interesses e suas motivações, respeitando tempo da sessão. O profissional precisa ser criativo, observador e saber transformar as técnicas, para fazer sob medida para aquela criança.
Algumas técnicas utilizadas no atendimento são: Técnicas Projetivas (HTP); fotografias: para a criança identificar-se como parte do grupo ou para mostrar seu desenvolvimento de como era e como é; livro de imagens: para que a criança se socialize com o mundo e as imagens das coisas (carro, flores, pássaros, televisão, rádio, etc.); jogos de palavras simples, espelho duplo, inversão de papeis, escrita espontânea; jogos verbais com regras: pergunta e responde; jogos tipo de salão: dama, xadrez, dominó; jogos corporais expressivos: tocar flauta, tocar algum instrumento de percussão, cantar, dançar; jogos corporais motores: guerra de almofadas, espadas, trabalhando defesa e ataque, diminui ansiedade; brincar de relaxar: aliviar dores e estresses; bolas de sabão: para aliviar a ansiedade, raivas, tensões; colagens de imagens que representem algum desejo, projeto; montar quadro de tarefas elaborando a rotina; caixinha do sentimento, dos monstros; histórias, uso de metáforas.
Fonte: http://www.ativamente.org.br/artigos-e-noticias/o-brincar-na-terapia-infantil
Luciléia Soares de Paula
_edited.png)




















Comentários